Cadastro de adoção ajuda a formar mais de 9 mil famílias desde 2008

“Eu nasci da cabeça, do coração, do corpo todo da minha mãe”. A frase deJoão Felipe, dita quando tinha dois anos, foi um marco para Wanda MacielMarques e Antônio da Conceição Marques.

Eles não escondem o orgulho do filho carinhoso e inteligente, adotadocom um ano e dois meses, que enche de alegria a casa em que moram, emSobradinho, no Distrito Federal.

O casal é um dosmais de 9,02 mil que realizaram adoções por meio do Cadastro Nacional de Adoção(CNA), ferramenta criada e coordenada pela Corregedoria do Conselho Nacional deJustiça (CNJ) desde 2008. Pelo cadastro, as varas de infância de todo o paíspassaram a se comunicar com facilidade, agilizando as adoções interestaduais. Atualmente,há 42 mil pretendentes cadastrados e 8 mil crianças à espera de umafamília.

Em 2018, ano em queo cadastro completará uma década, uma nova versão entrará em funcionamento paraas varas de Infância e Juventude de todo o País. O novo cadastro, que permitiráa pretendentes à adoção uma busca mais rápida e ampla de crianças, é resultadode propostas aprovadas pela maioria dos servidores e magistrados queparticiparam de debates nas cinco regiões do País este ano, organizadas pelaCorregedoria.

Outra novidade é a junção dos cadastros de adoção e o de criançasacolhidas, de forma a possibilitar a pesquisa sobre o histórico de acolhimentoda criança, anexando informações como relatório psicológico e social, além defotos, vídeos e cartas.

“A ideologia do novo cadastro é que possamos buscar uma família para ascrianças, e não o contrário”, disse a juíza auxiliar da Corregedoria SandraSilvestre Torres, que preside o Grupo de Trabalho instituído para oaperfeiçoamento do CNA.

“Anda cá, filho!”

Em 2013, quando já estava há quatro anos e meio na fila para adoção, aservidora aposentada do Judiciário Wanda Maciel Marques recebeu a ligação daassistente social perguntando se gostaria de conhecer uma criança dentro doperfil escolhido pelo casal, que era de até três anos, com a possibilidade deadotar irmãos.

Ao encontrarem João Felipe, de pouco mais de um ano, eles tiveram acerteza de estar olhando nos olhos do filho que esperavam. Com seusotaque português, Antônio relata emocionado quando disse anda cá, filho!. " Ele abriu um sorriso de canto a canto e veio para os meus braços”, dizAntônio.

No segundo dia em que os pais estiveram visitando João Felipe no abrigo,foram informados que o menino tinha ido ao médico por conta de uma febre muitoalta durante a noite. Ao voltar para a instituição, outras crianças disseramque os pais dele estavam ali, e a febre do menino no mesmo instante baixou.“Com uma semana não tinha quem o tirasse da gente. Quando ele chegou em casa,corria sem parar pelo berço, pelos brinquedos, como se dissesse ‘isso é meu!”,diz Wanda.

O casal, que está na fila para adotar outra criança, lida comnaturalidade com o tema da adoção. Uma vez, João perguntou à mãe por que amulher que o “teve na barriga” não ficou com ele.

“Disse que ela não tinha condições de cuidar, dar comida, roupa ecarinho, mas que foi uma boa pessoa porque cuidou dele até nascer para quetivesse uma família”, disse Wanda.

Adoção em outros estados

O CNA passou a permitir que, no momento em que insira os dados de umacriança no sistema, o juiz seja informado automaticamente se há pretendentes nafila de adoção compatíveis com aquele perfil em todo o país. Até então, osdados de pretendentes e crianças ficavam restritos à cada região, dependendo deum esforço de busca ativa por parte do juiz ou dos próprios pretendentes paraque a migração de informações entre os estados ocorresse.

Vizinha a Recife, a cidade de Jaboatão dos Guararapes é exemplo desucesso dessas adoções. A cidade teve o maior percentual de Pernambuco de adoçõespor meio do CNA desde 2008. Nos últimos dois anos, foram feitas 39 adoções pelocadastro. Em uma delas, um casal do Rio de Janeiro foi buscar uma criança commicrocefalia. Em outra, uma transexual de São Paulo adotou um menino de dezanos que sempre se vestiu e se comportou como uma menina.

Este ano, outro caso que marcou a juíza Christiana Caribé, responsávelpela Vara da Infância e Juventude de Jaboatão, foi uma adoção de três irmãos –com idades entre zero e seis anos -, por um casal que já tinha quatro filhosbiológicos adultos. “No primeiro dia que passaram com os pais, durante oestágio de convivência, já não queriam voltar para o abrigo”, disse a juízaChristiana.

Jaboatão dos Guararapes têm três abrigos – neles, há 21 crianças cujaguarda já foi destituída de forma definitiva e que estão inseridas no CNA. Deacordo com a juíza Christiana, na maioria dos casos as crianças vão parar nasinstituições em situação de negligência e extrema pobreza, sem ter recebidoestímulos de aprendizagem. Foi o que ocorreu com os irmãos que foram adotadosrecentemente. “O mais velho não sabia distinguir entre os nomes de frutas e oude cores, chamava tudo pelo mesmo nome”.

Adoção especial

Era uma sexta-feira quando a professora da rede pública Taicy Ávila eseu marido conheceram no abrigo o pequeno Carlos, um bebê de pouco mais de umano com paralisia cerebral. O casal estava na fila de adoção há nove meses e aassistente social informou que eles deveriam pensar durante o fim de semana sequeriam mesmo adotá-lo, ao que Taisy replicou prontamente: “Não podemosresponder agora? ”.

O casal não tinha dúvidas de que aquele era seu filho e o fato de seruma criança especial não mudaria essa certeza. “Não estou na loja escolhendo umproduto, estou tendo um filho. Se a gente não pode escolher, em uma gravidez,se o filho nascerá com deficiência, também não escolheríamos na adoção”, disseTaisy.

Carlos nasceu com má-formação congênita e passou quatro meses na Unidadede Terapia Intensiva (UTI). De lá, foi direto para o abrigo onde viveu atéencontrar os pais adotivos. “Quando o conhecemos, ele só conseguia se arrastar.Agora já fica de pé, se desenvolveu muito! ”, comemora Taisy.

Ao entrar na fila da adoção, o casal não fez nenhuma exigência emrelação ao sexo ou à condição de saúde da criança, apenas que tivesse menos deseis anos, porque já tinham um filho biológico nessa idade e gostariam quecontinuasse a ser o filho mais velho. A família frequentou por um ano o grupode apoio à adoção da ONG Aconchego, parceira da Vara de Infância e Juventude noDistrito Federal, o que, para Taisy, foi fundamental também para o preparoemocional de seu primogênito, que pôde vivenciar todo o processo até a chegadado irmão.

A professora se incomoda com os comentários de pessoas que pensam que aadoção de uma criança especial é um gesto de caridade. “A sociedade julga muitouma mãe que abandona um filho que nasce com microcefalia, por exemplo, mas achanormal que no processo de adoção o casal faça uma série de exigências”, ponderaTaisy.

Adoção tardia, amaior barreira

A adoção de crianças mais velhas ainda é a principal dificuldade paraconseguir famílias às crianças que vivem em abrigos. No entanto, dados do CNAmostram que esse cenário vem melhorando. Em 2011, apenas 6,7% dos pretendentescadastrados no CNA aceitavam crianças com mais de cinco anos; em 2017, essepercentual aumentou para 20,2%.

Das 1.142 crianças adotadas neste ano, 351 tinham mais de 5 anos ao serconcretizada a adoção – ou seja, 30,7%. A aceitação de crianças negras tambémmelhorou: em 2011, apenas 31% dos pretendentes estavam abertos a adotá-las; em2017, esse percentual é de 51%.

Para a juíza Maria Lúcia de Paula Espíndola, da 2ª Vara de Infância eJuventude de Curitiba, o principal desafio é encontrar habilitados interessadosna adoção tardia. A vara é responsável por 62 acolhidos disponíveis à adoção -60 deles têm mais de onze anos. Entre as iniciativas da Vara para enfrentaresse contexto está a realização de eventos para interação entre acolhidos comdisponibilidade de adoção e pretendentes habilitados, com objetivo de despertareventual interesse na adoção tardia. “Além disso, projetos de apadrinhamentofamiliar oportunizam um referencial de convivência familiar e comunitária, quepor vezes resulta em adoção tardia”, diz a juíza Maria Lúcia.

Fonte: Agência CNJ de Notícias