Em outubro de 2015 completo 63 anos em lides cartoriais. Comecei a trabalhar em Cartório em 1952 como escrevente do então Cartório do Cível e Crime de São Leopoldo e fui ajudante Substituta no cartório de Registro Civil durante 14 anos. Concursada em difícil pleito com 216 candidatos (qualquer semelhança com concursos atuais é mera coincidência), fui aprovada em 12º lugar e nomeada para o Cartório distrital de Bom Retiro do Guaíba. Lá, em Bom Retiro, passei 18 anos de minha vida funcional. O distrito não tinha nem ao menos luz elétrica. Imperava o regime de gratuidade para os absolutamente pobres. Mas em Bom Retiro todos eram pobres, ninguém podia pagar por nascimentos, casamentos e óbitos. Como escrivã distrital exercia o Tabelionato, mas ninguém comprava e nem vendia imóveis. Quem tinha terra, plantava nela, quem tinha casa, residia. Meu marido Rodir, então professor em Guaíba, emprestava dinheiro para comprar livros e papel. Pasmem: Professor emprestando dinheiro? O cartório funcionava numa sala cedida pela diretora da escola. Não havia dinheiro para aluguel. Em Bom Retiro aprendi a gostar do Registro Civil de Pessoas Naturais. Aprendi o valor que o registro de nascimento tinha para aquelas pessoas carentes e abandonadas pela sorte. Com a certidão de nascimento podiam ir à escola, elaborar carteira de identidade, conseguir trabalho, podiam casar, registrar filhos, prestar serviço militar (hoje poderiam até receber bolsa família e outros benefícios sociais que não existiam na época). Até hoje o Registro Civil é a menina dos meus olhos no Cartório, apesar de todas as dificuldades que temos para manter o serviço. Nunca desisti, mesmo quando familiares diziam que eu não trabalhava por dinheiro ou vocação, trabalhava por ¨louca que era¨. O Cartório de Bom Retiro foi extinto por falta de serviço e fiquei designada, por ordem do Juiz, no Fórum de Guaíba. Pedi transferência para Palmares do Sul e depois de um ano de espera, concorrendo com 12 colegas, fui vencedora por ter maior tempo de serviço. Lembro que nesse período fazia visitas a cada 15 dias à Corregedoria Geral da Justiça, onde encontrava sempre a boa vontade do colega Lamana Paiva, pronto a me ouvir e entender meu problema. Em Palmares do Sul estou há 3l anos. O Cartório que era de Sede Municipal foi desdobrado. Fiquei com Registros Públicos. Não fiquei rica, sempre trabalhei muito gostando do que faço. O que ganhei com tantos anos de trabalho, dedicação, reveses e alegrias? O que ganhei, alem de bom conceito em minha comunidade e muitas amizades, é que agora SEI TUDO SOBRE CARTÓRIO.
SEI TUDO DE CARTÓRIO
Quando a Aurora, aquela que ilumina meu amanhecer, passa rapidamente meus problemas aos sábios do Colégio Registral, que abnegados respondem trabalhando com afinco e dedicação para manter a classe em segurança e unidade. Quando o Lamana Paiva (aquele mesmo, com seu inigualável coleguismo) consultado, atende meus pedidos de socorro, tendo até mesmo me assombrado com a resposta: ¨Estou no exterior, mas já volto sexta-feira e te ajudo a encontrar a solução¨. Quando o Mario Mezzari sacrifica um feriado para me auxiliar a impugnar um mandado judicial de complexidade que me amedronta. Quando o Paulo lá de Teotonia, meu namorado consentido, pois até o Rodir e Denize sempre souberam do amor que lhe dedico, estuda e responde, me auxiliando sempre. Quando os sábios meninos Marcelo de Tramandaí, Édison de Santo Antonio da Patrulha e a querida Lilia de Mostardas, passam tempo comigo ao telefone procurando maior segurança aos meus Registros, num grande abraço de amizade e coleguismo. Quando a Lizete de Osório e sua incomparável Jussinara me socorrem com carinho e atenção. Sei tudo de Cartório quando sei que amigos eternos como o Tomaz e a Valesca também de Santo Antonio da Patrulha, antigos companheiros de inesquecíveis encontros regionais do Registral estão ali, passe o tempo que passar sem nos vermos. Quando o Edison do Sindiregis e a Joana lá da Arpen, com suas maravilhosas funcionárias, estão trabalhado a nosso favor. Quando o Delair de Igrejinha e sua linda Terezinha, companheiros de encontros e Congressos lembram de mim, tão longe, mas bem perto do meu coração (isto dá samba). Quando a Lenir de Guaíba, trabalhadora do Registro Civil como eu, liga para trocar idéias e ouvir minhas queixas. E o Percio, que sabe tudo sobre Pessoas Jurídicas, junto com suas competentes Angela e Vera, estão sempre disponíveis aos amigos e colegas. Por tudo e todos os queridos, mesmo os que aqui não mencionei, mas que me auxiliaram a vencer ou a perder estes 63 anos é que SEI TUDO SOBRE CARTÓRIOS e sobre o companheirismo que nos une.
E aí o Rodir faleceu. Diz a música do Caetano: ¨Agora, que faço desta vida sem você¨? Volto ao Cartório e continuo A TRABALHAR, porque trabalho é vida, reconstrução, é tristeza, alegria. Trabalho é percurso.
Devo lembrar que tenho minha filha Karina, designada em outro Cartório, que passa comigo muitas noites insones, tentando me ajudar a SABER TUDO SOBRE CARTÓRIO. E meus incansáveis funcionários, M A R A V I L H O S O S, a quem tudo devo e muito agradeço.
Tendo sido agraciada com perda do direito de aposentadoria aos 70 anos de idade e perda de todo o dinheiro que recolhi ao IPERGS durante 38 anos, por ter optado continuar trabalhando, já sabendo tudo de Cartórios, resolvo viver 130 anos e vou continuar a registrar crianças que é o que mais gosto de fazer em minha vida funcional. OBRIGADA, MUITO OBRIGADA.
DENIZE LUZ PINKOSKI
Registradora
Palmares do Sul