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O mais triste dos inventários - Tarcisio Alves Ponceano Nunes

No cotidiano notarial sempre nos deparamos com situações inusitadas e, por vezes, insólitas. São tantos os atos que podemos praticar, nas mais variadas situações, que acabamos envolvidos em histórias, brigas, alegrias e tristezas de pessoas que passam por nossas Serventias, e, porque não, por nossas vidas.

Como não se emocionar com o casal que, depois de tantos anos de casados, resolve se separar, pondo fim à união até então “indissolúvel”?

Ou com a pessoa humilde que vem até ao Tabelionato lavrar a escritura de seu imóvel, imóvel este, que adquiriu com muito sofrimento, com prestações à perder de vista?

Ou com o pai que, premido de remorso, dirige-se ao Cartório para lavrar uma escritura pública de reconhecimento de paternidade?

Ou ainda com o enfermo, receoso de seus últimos dias, que se dirige à Serventia para declarar as suas diretivas antecipadas de vontade?

O que dizer então dos herdeiros que, ainda abalados pela morte do seu ente querido, nos procuram para inventariar e partilhar o patrimônio deixado pelo falecido?

São tantas histórias que chegam até nós, tabeliães deste País, que muitas acabam se perdendo em nossas lembranças, desaparecendo de nossas vidas como o fogo, que mais cedo ou mais tarde tende à se apagar.

Mas de todos os atos que já pratiquei em minha curta carreira como Notário, o que mais me emocionou, sem dúvida, foi quando comecei a separar a documentação para fazer o inventário de minha querida mãe.

Falecida no final de março deste ano, passei a juntar os documentos em abril, visando regularizar logo a situação de seu patrimônio e, assim, tentar seguir a vida. Ledo engano: não há como se esquecer de alguém tão especial; quanto à seguir a vida, seguimos, mas cientes de que estamos incompletos. Em cada documento juntado, uma lembrança aparecia, surgindo em mim a certeza de que, em nosso ofício notarial, o bom trato aos clientes é fundamental, principalmente em uma hora tão difícil. Vivenciando a dor de ser parte do ato de inventário, eu pude compreender, inteiramente, o quão complicado se revela este momento e, assim, procurar novas formas de trabalho, visando reconfortar e reduzir ao máximo o trabalho e aborrecimento dos herdeiros. Essa é justamente a nossa função: pacificar, ainda que seja somente buscando a forma mais rápida e menos dolorosa para os herdeiros, que já se encontram tão abalados neste momento terrível.

Quanto à minha mãe, o que fica são as lembranças de uma de minhas maiores incentivadoras, que sempre me acompanhou em todos os momentos da minha vida, felizes ou tristes, não me deixando desistir nunca; minha mãe que me acompanhou em um dos momentos mais difíceis de minha vida, quando adoeci aos 16 (dezesseis) anos; minha mãe que me ajudou a levantar, curado e pronto para novos desafios... Fica, entretanto, a sensação de tristeza em pensar que não consegui ajudá-la no momento em que ela adoeceu, não conseguindo ajudá-la a se levantar, como ela fez por mim. Fica somente a saudade...