Corria o ano 1963, o país agitado por passeatas, greves e a iminência de uma revolução militar que veio a concretizar-se no ano seguinte. Numa publicação da época encontrei o modo simples de fazer um hectógrafo, instrumento com o qual se podia copiar quantas coisas quiséssemos e assim economizar tempo e trabalho. É bom lembrar que não havia copiadoras, nem fotocopiadoras nem toda esta parafernália de equipamentos de reprodução que temos hoje. Munam-se de paciência mas não esqueçam o que dizia o artigo: o método é simples. A primeira coisa de que necessitaríamos, ensinavam, era um prato largo de estanho, maior do que o papel que usaríamos. A tampa de uma caixa quadrada ou oblonga também poderia servir perfeitamente. Deveríamos ir a uma farmácia para adquirir os ingredientes necessários: 30 gramas de gelatina, a mesma porção de açúcar, 160 gramas de glicerina e 70 gramas de sulfato de bário. O artigo recomendava que era bom ter também um pequeno frasco, cuja utilidade logo conheceremos. Deveríamos partir a gelatina em pedacinhos e deixar ficar toda (naquele tempo escrevia-se tôda, com assento, para diferenciar de toda, uma pequena ave como me ensinava o saudoso professor Pedro Pinto da Silva) a noite a amolecer numa caçarola com água limpa. Vamos seguir a receita da copiadora simples: na manhã seguinte colocar a glicerina dentro da gelatina amolecida e aquecer tudo em fogo brando. Colocar o açúcar e conservar a mistura quente até que este derreta. Juntar, até dissolver, o sulfato de bário numa xícara com 30 gramas de água e jogar na mesma caçarola onde já foram postos os outros ingredientes. Mexer tudo bem até ficar bem misturado e, a seguir, colocar no prato de estanho de que já falamos. O prato tem que estar limpo e, recomendação importante, "se necessário será lavado primeiramente muito bem com água quente e sabão." Quando a mistura endurece completamente, é sinal de que já está pronta e fica lisa e macia como borracha. Sair novamente para comprar tinta hectográfica em qualquer papelaria (será que ainda existe), ou prepará-la vocês mesmos (agora sim, fica mais fácil). Querendo fazê-la, arranjem um pequeno frasco e coloquem 3,5 gramas de anilina violeta e 8,5 gramas de álcool. Encher o vidro com água e agitar até que a anilina fique dissolvida. O processo de usar o hectógrafo é muito simples, ensinavam: escrever com tinta comum num papel lustroso e depois de ela estar seca, colocar este papel com a parte escrita para baixo, sobre o hectógrafo, com toda a atenção para que o papel não fique enrugado. Em seguida, esfregar com os dedos as costas do papel para comprimir a escrita sobre o hectógrafo e cinco ou dez minutos depois puxar por um dos lados, e terão as letras impressas no hectógrafo. Este encontra-se desde então preparado para imprimir em outras folhas de papel aquilo que foi escrito no papel lustroso original. Para isso deve-se empregar folhas não lustrosas, as quais se colocam bem estendidas sobre a superfície do hectógrafo; passados alguns segundos a escrita fica impressa no papel, podendo tirar quarenta ou cinquenta cópias do mesmo trabalho ainda com tinta bastante legível, sem necessidade de nova operação para estampar a escrita na superfície do dispositivo. Para limpar o hectógrafo, lavar primeira com água e ácido clorídrico (não tinham avisado antes, teremos de voltar à farmácia), sendo 7/8 daquela e 1/8 deste, e em seguida tornem a lavar com água simples. Só 12 horas depois é que o aparelho pode ser usado novamente. Este era um dispositivo simples para fazer cópias, no ano 1963. Naquele tempo as escrituras e os registros públicos eram todos manuscritos, com tinta preta ou azul permanente. Apenas os traslados e certidões já podiam ser datilografados. Naquele tempo não havia computador no trabalho e, se houvesse, não poderia ser usado. Naquele tempo nem microfilme tinha lei que autorizasse seu uso nos serviços notariais e de registro. Naquele tempo o prazo para fazer um registro imobiliário era de trinta (30) dias e o prazo para expedir certidão era de cinco (5) dias úteis. Hoje temos computadores, impressoras, quase nada mais se manuscreve. Hoje ficamos impacientes frente a uma copiadora se ela demora mais do que 10 segundos para startar. Hoje falamos startar. A Lei dos Registros Públicos mantem os mesmos prazos para execução dos serviços e tem gente que ainda precisa dele para conseguir atender à demanda. Francamente!